Superando os desejos

textos traduzidos de Sri Chinmoy

O Tigre dos Desejos

Ao entrarmos na vida de aspiração e espiritualidade, o Supremo não vai trazer desejos e impurezas a mais para nossa mente ou para nossa vida. Foi Ele quem nos deu aspiração. Por que deveria dar desejo, que é diretamente o oposto da aspiração? Não. Ele não vai impedir deliberadamente nosso progresso dessa forma. Parece que esses desejos surgiram de repente, mas nós não os percebemos tanto assim porque nossa vida estava totalmente rodeada por uma série de desejos.

Ao nos tornarmos conscientes da vida divina interior, ao começarmos a orar e a meditar, percebemos que o desejo é um tigre, um animal feroz que temos alimentado e alimentado, e entendemos que não devemos alimentá-lo mais. Então, nossos desejos ficam enfurecidos conosco. Eles dizem: “Todo esse tempo você nos alimentou e somos muito gratos por isso, mas agora você começou a nos matar de fome”. Todos os desejos frustrados formam uma aliança e nos atacam de todos os jeitos possíveis, causando problemas com a família, amigos, emprego, relacionamentos emocionais e outros.

Purity, Divinity’s Little Sister, p. 14-15

Esquecendo do Passado

(…) Eu quero que você esqueça completamente do seu passado. Seu passado foi deplorável. E até agora ele tem vindo à tona e eclipsado o seu presente. Esta é uma situação bastante triste. Gostaria de dizer que quando você pensa consciente ou inconscientemente no passado, os pensamentos impuros e desejos não satisfeitos do passado retornam; e quando inconscientemente os acalenta, você estará na verdade acalentando pensamentos impuros, que não são de forma alguma sadios.

Purity-River Wins, p. 64-65

Meta Superior

(…) Também há a possibilidade de que, no início da jornada, um buscador possa almejar uma meta menor porque não está consciente da sua maior capacidade, ou porque não está liberto de seus desejos. Se o indivíduo não tem verdadeira, sincera aspiração, se não é um buscador genuíno, Deus lhe dará o que ele conscientemente quer e espera. Mas, se ele ora e medita com toda alma, quando Deus vir a sua sinceridade e potencialidade, Deus não irá querer que ele alcance a meta inferior. Deus guarda uma meta infinitamente mais elevada pronta para ele.

No início, sua expectativa pode ser uma gota de Luz, mas Deus está preparando você para poder receber uma vastidão infinita de Luz. No início, pode tentar obter apenas uma gota de Néctar; pode sentir que isto é suficiente. Mas Deus quer alimentá-lo com uma grande quantidade de Néctar. Assim, quando é absolutamente sincero na sua vida espiritual, se tem uma meta menor, Deus pode negar esse seu objetivo inferior, pois Ele guarda para você a Meta mais elevada. Mas, como não enxerga a Meta altíssima, sente que Deus não é bom nem Se importa com você. (…)

The Master and the Disciple

O Jogo-Vida

No jogo-vida, consciente ou inconscientemente cada alma corre em direção à meta de perfeição interior. Naturalmente, você quer chegar lá o quanto antes. Para tanto, simplifique a sua vida exterior – a vida de confusão, desejos, ansiedade e preocupação – e intensifique a sua vida interior – a vida de aspiração, dedicação e iluminação.

Nas primeiras horas da manhã, ao iniciarmos nossa jornada-meditação, devemos sentir que ela é uma continuação da jornada de ontem. E, no dia seguinte, sentiremos que mais uma milha foi percorrida. Sabemos que um dia haveremos de alcançar a nossa meta e, portanto, mesmo que nossa velocidade diminua, devemos continuar correndo. Quando alcançarmos a meta, veremos que valeu a pena.

O Dever do Guerreiro

O dever de Arjuna era lutar, pois ele era um Kshatriya, um guerreiro. Essa luta não era por poder, mas para o estabelecimento da verdade sobrepujando a falsidade. As palavras mais encorajadoras de Sri Krishna acerca do dever do indivíduo exigem toda a nossa admiração: “Melhor sempre o dever de si mesmo, não importa quão humilde seja, do que o de outro, por mais tentador que seja. Até mesmo a morte traz bem-aventurança àquele que executa seu dever conferido. Fadado à perdição estará aquele que executar o dever previsto para outro.”

Arjuna tem mais uma pergunta, bastante pertinente, e essa é a sua última pergunta do capítulo. “Impelido por quê, Ó Krishna, um homem comete pecado?” (3.36) “Kama, krodha,” responde Krishna, “desejo e raiva – são esses os hostis inimigos do homem.” (3.37)

O desejo é insaciável. Uma vez nascido, ele não sabe como morrer. A experiência do rei Yayati com o desejo nos inundará com luz. Vamos citá-la:

(aqui mantenho a narração de Sri Chinmoy no inglês original)

“King Yayati was one of the illustrious ancestors of the Pandavas. He was utterly unacquainted with defeat. He was well conversant with the Shastras (scriptures). Immense was his love for his subjects in his realm. Intense was his devotion towards God. Nevertheless, cruel was his fate. His father-in-law, Sukracharya, the preceptor of the asuras (demons), pronounced a fatal curse on him, and he was forced to marry Sharmistha in addition to the daughter Devayani. Sukracharya cursed Yayati with premature old age. Needless to say, the curse took an immediate effect. The inimitable pride of Yayati’s manhood was ruthlessly stricken with age. In vain the king cried for forgiveness. However, Sukracharya calmed down a little. “King,” he said, “I am lessening the strength of my curse. If any human being agrees to exchange the beauty and glory of his youth with you, with your body’s deplorable state, then you will get back the prime of your own youth.”

Yayati had five sons. He begged of his sons, tempted them with the throne of his kingdom, persuaded them in every possible way to agree to an exchange of life. His first four sons softly and prudently refused. The youngest, the most devoted, Puru, gladly accepted his father’s old age. Lo, Yayati at once was transformed into the prime of his youth. In no time, desire entered into his body and commanded him to enjoy life to the last drop. He fell desperately in love with an Apsara (nymph) and spent many years with her. Alas, his insatiable desire could not be quenched by self-indulgence. Never. At long last he realised the truth. He fondly said to his dearest son Puru: “Son, oh son of mine, impossible to quench is sensual desire. It can never be quenched by indulgence any more than fire is extinguished by pouring ghee (clarified butter) into it. To you I return your youth. To you I give my kingdom as promised. Rule the kingdom devotedly and wisely.” Yayati entered again into his old age. Puru regained his youth and ruled the kingdom. The rest of his life Yayati spent in the forest practising austerities. In due course Yayati breathed his last there. The soul-bird flew back to its abode of delight.”

O hábil comentário de Bernard Shaw sobre o desejo pode ser citado para aumentar a glória da experiência de Yayati. Shaw disse: “Existem duas tragédias na vida. Uma é não ter concedido o desejo de seu coração. A outra é recebê-lo.” – Man and Superman

Desejo satisfeito, a vida se torna uma cama de espinhos. Desejo superado, a vida se torna um leito de rosas. Desejo transformado em aspiração, a vida voa para a liberação altíssima, a vida ceia com a salvação Suprema.

Commentary On The Bhagavad Gita, Agni Press, 1971.