Hafiz – uma curta história de quem foi o poeta persa

Hafiz viveu c.1320-1389, e foi um dos mais amados poetas persas. Nascido na cidade-jardim de Shiraz, Hafiz se tornou lá um famoso professor espiritual Sufi. Entre outros, Hafiz influenciou Ralph Waldo Emerson, que traduziu diversos dos seus poemas.

Traduzido e abreviado do livro “A Year with Hafiz – Daily Contemplations”, de Daniel Ladinsky

Hafiz era um buscador espiritual. Sua busca começou quando era assistente de padeiro, com a idade de vinte e um anos. Certo dia ele foi entregar pão em uma mansão e viu uma moça bela lá. Com apenas esse vislumbre, ele se apaixonou perdidamente pela moça, que nem tinha notado ele. Ela era bela e rica, e ele era baixo, humilde e nada atraente – a situação era perdida.

Hafiz escreveu canções e poemas sobre a sua beleza e o anseio que sentia. Em breve as pessoas começaram a repetir seus poemas e cantar suas canções, de tão tocantes que eram. Mas Hafiz nem sabia da sua fama, e começou uma disciplina árida, que consistia em manter vigília durante quarenta noites ao lado da tumba de um santo. Ele trabalhava e dia e cumpria a quase impossível austeridade durante a noite, que diziam que concederia qualquer desejo a quem a cumprisse. Seu amor foi tão forte que ele conseguiu completar a tarefa.

No despertar do quadragésimo dia, o arcanjo Gabriel apareceu diante de Hafiz e disse-lhe que poderia pedir o que quisesse. Hafiz nuca tinha visto tão glorioso e radiante ser como Gabriel. Ele pensou: “Se o mensageiro de Deus é tão belo, quão mais belo Deus deve ser!” Observando o esplendor inimaginável do anjo de Deus, Hafiz esqueceu completamente da moça, do seu desejo, de tudo. Ele disse: “Eu quero Deus!”

Gabriel então direcionou Hafiz a um professor espiritual que vivia em Shiraz. O anjo pediu a Hafiz que servisse o professor de todas as formas e seu desejo seria satisfeito. Hafiz correu para encontrar o seu professor, e juntos começaram seu trabalho naquele mesmo dia.

 

Está escrito no portão do Céu:

Nada é mais poderoso que o destino.

E o destino o trouxe aqui, a esta página, que é parte do seu bilhete

Para – como acontece com todas as coisas – retornar a Deus.

– Hafiz

Mirabai – biografia

(extraído da Wikipedia sobre Mirabai)

Mirabai (1498-1547) (outras transliterações Meera; Mira; Meera Bai) foi a mais importante poetiza hindu da Índia medieval…

Seus poemas e canções, denominados bhajans fazem parte da tradição religiosa denominada bhakti, ou do amor devocional, dirigido principalmente a Krishna. Juntamente com Tukaram, Kabir, Guru Nanak, Tulsidas, Ramananda e Caitanya, Mira é considerada um dos expoentes da tradição hindu de bhakti.

Mira nasceu como uma nobre (da casta dos xátrias), no Rajastão e fazia parte de um dos mais importantes clãs locais, os Rajputs. Ela casou-se com o príncipe Bhoj Raj e se tornou a rainha de Chittor, a cidade estado tida como a mais importante de todo Rajpur.

A sua imensa devoção por Krishna a fez desposá-lo em segredo e com a morte de seu esposo ela se recusou a cometer sati. Essa atitude fez com que o regente do trono passasse a perseguir Mira, tramando por sua morte e tentando levá-la a cabo por algumas vezes.

Mira abandou a corte e passou a peregrinar pelos locais sagrados ligados à vida de Krishna, tais como Mathura, Vrindavana e Dwarka, compondo os seus poemas e cantando os seus bhajans, em grande êxtase devocional, até que por fim ela milagrosamente foi absorvida por uma deidade de Krishna em Dwarka.

Robert Frost

Os bosques são lindos, escuros e profundos,

Mas tenho promessas a guardar,

E milhas a percorrer antes do repousar,

E milhas a percorrer antes do repousar.

 

Quero comentar brevemente sobre essas linhas imortais de Robert Frost. Essas devotadas linhas vieram diretamente dos mais profundos recônditos do poeta. Os bosques, de um ponto de vista espiritual, na vida interior, significam aspiração. O significado espiritual de um bosque lindo e escuro é uma intensa aspiração. O que é aspiração? Aspiração é a chama profunda que há dentro de nós e nos leva ao Absoluto Altíssimo. E quando dizemos aspiração intensa, temos de sentir a intensidade da aspiração como algo que nos conduzirá mais rápido até a nossa Meta destinada e, ao mesmo tempo, trará o nosso destino para perto. Quando a intensidade habita na nossa aspiração, a realização não é mais uma meta distante. Não. Logo a realização estará a nosso alcance.

O poeta ainda diz: “E milhas a percorrer antes do repousar.” Aqui, a aspiração é o despertar da jornada, e a realização é o desfecho. Quando mergulhamos no caminho interior, percebemos que a Meta destinada está muito, muito longe. O poeta certa e devotadamente nos conta que a Meta do Além é muitíssimo longínqua. E conta que, uma vez alcançada essa Meta, ele poderá dormir.

Do ponto de vista humano comum, essa afirmação está absolutamente correta. Apreciamos o fruto da realização apenas quando alcançamos o destino. Mas, do ponto de vista rigorosamente espiritual, vemos algo mais. A realização é algo constantemente auto transcendente. A aspiração de hoje se transforma na realização de amanhã. E a realização de amanhã é a desbravadora de uma Meta mais elevada e mais profunda. Não há fim para a nossa realização. Deus é eterno. Nossa jornada é eterna, e a estrada em que estamos marchando é também eterna. Somos soldados divinos, eternos, marchando em direção ao Além que está sempre transcendendo suas próprias margens.

 

3 de abril de 1970

Darthmouth College

Hanover, New Hampshire

 

– Sri Chinmoy

 

Do livro Pensadores-Filósofos do Ocidente editora Agbook

Emily Dickinson

Dez de dezembro foi o aniversário de Emily Dickinson, a inigualável poetisa americana e universalmente valorizada poetisa mundial. Emily e a sua família foram uma existência única e inseparável. As necessidades da sua família eram tudo para ela. Sua família via em Emily a intensidade da realidade, uma parte do toque preenchedor da sua divindade, iluminadora e futuro-construtora, no coração da humanidade.

O coração de Emily carregou sua consciência física e vital até o mundo da alma. A sua alma, de maneira sublime, mas sutil, levou os três membros – corpo, vital e coração – para a fonte da própria alma, a Terra-Imortalidade. Quando retornaram, o corpo, vital e coração estavam convencidos da realidade dessa Terra-Imortalidade divina.

Apenas porque a mente não foi convidada por Emily ou por sua alma, coração, vital ou corpo para essa viagem, a sua mente recusou violentamente a acreditar na autenticidade das experiências iluminadoras, preenchedoras e imortalizadoras de Emily. A mente colocou-se inamovível entre o finito e o Infinito, entre o corpo e vital e o coração e alma, entre o mundo conhecido intencionalmente e o mundo conhecido inconscientemente. E, para piorar, por vezes a mente foi tão capaz de convencê-la que a sua antes delirante realidade-mundo passou a ser nada mais do que um mundo-concepção-alucinação visionário na vida humana. Essa formidável e venenosa dúvida acarretou uma indulgência auto-deboche, verdade-deboche e mundo-deboche na sua vida. Naturalmente, o céu-iluminação do seu coração não pode lhe conceder a dádiva do livre acesso à sua vastidão interior e plenitude exterior.

Emily aprendeu muito pouco pela associação com a vida exterior. Mas aprendeu muito com a associação interior com sua reclusão-mundo. O mundo exterior foi certamente uma experiência isenta de realidade integral para ela. Assim, o que sabia e pensava sobre o mundo não poderia se tornar uma experiência encorajadora, sustentadora, inspiradora, iluminadora e preenchedora, algo que a levasse à sua própria existência-realidade.

O amor de Emily por Deus e pela natureza fez dela interiormente bela. Por toda sua vida, Emily foi introvertida. Ela abraçou a vida de reclusão auto imposta. A Beleza-Compaixão de Deus foi a sua recompensa. Na Beleza-Compaixão de Deus, seu mundo e aqueles que queriam viver nele se tornaram instrumentos-preparação para a transformação e perfeição das experiências-frustração da vida.

Sua aspiração não estava apenas na seclusão, mas a própria seclusão se tornou sua aspiração. Dentro da aspiração-seclusão ela teve alguns marcantes vislumbres do sol-iluminação interior. As ciladas da vida lhe deram duas ou três experiências-frustração intoleráveis, que exigiram dela que mergulhasse fundo, muito fundo dentro de si, para descobrir a riqueza da vida interior.

Enquanto esteve na Terra, obscuridade foi o seu nome. Apenas sete poemas foram publicados enquanto a Mãe Terra a nutria. Mas, quando o Pai Céu passou a sustentá-la, a Terra amorosamente reconheceu a sua grandiosa realização e sentiu relevante orgulho dos presentes alma-comoventes de Emily para a humanidade.

Cerca de mil e oitocentos poemas-flor compõem a sua guirlanda. Algumas das pétalas das flores oferecem sua beleza pueril, enquanto outras são dever pueril, e outras são a sabedoria madura de uma santa cristã. Sua percepção é que o Desconhecido e o Além serão sempre uma realidade incerta e desconhecida. Porque ela sentia que essas coisas seriam sempre desconhecidas, a verdadeira Fonte-Realidade não pode satisfazer a sua sede-realidade e preenchê-la.

Um dos críticos desproporcionalmente ruins não via nela nada além de uma louca de superlativo grau. E por quê? Foi este nosso mundo nosso o responsável por não proporcionar-lhe a satisfação do coração de que ela tanto precisava. Sua experiência-coração diz à Terra: “Terra, eu compreendo o seu dilema. Você quer e, ao mesmo tempo, não quer uma face-transformação. Uma face-transformação, de acordo com você, é irreal ou não poderá satisfazê-la. Portanto, o seu clamor interior não é intenso o suficiente, não é genuíno ou duradouro.”

A Terra diz à poetisa: “Você está certa, está certa. Mais do que certa. Eu gostaria de dizer que o que tenho não está me satisfazendo, e o que poderei ter também não me satisfaz. Mas eu sinto que, se na criação de Deus a satisfação nunca despertar, Deus ficará incompleto. Acalentar a ideia que Deus é ou ficará incompleto deixa a minha própria realidade-existência incompleta para a Eternidade. Perguntas, eu tenho; respostas, não. Mas tenho certeza de que a minha vida-paciência será inundada de luz-resposta no seio da hora escolhida da Eternidade.”

Para o Céu, a vida experiência da poetisa diz: “Céu, se você realmente é infuso de alma, então deve me agradar poderosamente. E, se você é realmente poderoso, não pode suportar um abismo gigantesco entre a sua realidade-êxtase e a minha realidade-depressão, frustração e destruição. A verdadeira realidade está na auto-expansão fundada na iluminação-distribuição.”

O Céu diz à sua alma : “Ó poetisa-buscadora, mergulhe infinitamente mais fundo. Não sou precisamente aquilo que você viu em mim. Não sou nada daquilo que você acha em mim. Estou muito além da sua aspiração-descoberta-desejo. Dentro da sua realização-descoberta-aspiração é que você encontrará a mim e à minha unicidade da universalidade.”

 

12 de dezembro de 1975

Nações Unidas, Nova Iorque

 

– Sri Chinmoy

 

Do livro Pensadores-Filósofos do Ocidente editora Agbook

Walt Whitman

Whitman é natureza. Whitman é vastidão. Whitman é todo inspiração. Denso e sutil, ele é o corpo e a alma da poesia que espreita a Verdade. Sua obra “Folhas de Relva” revela a profundidade da sua visão e a vastidão da sua compreensão. Sua personalidade determinada e impositiva reluz através desses poemas, poemas que chamou de “New World Sons and an Epic of Democracy.”

Quando o vento e a tempestade de hoje trouxerem o Amanhã dourado, Whitman brilhará, aureolado de uma nova glória no novo horizonte. Seus poemas e a consciência da sua nação são inseparáveis. Os poemas de um homem devem sempre ser a reflexão do seu caráter e personalidade. E Whitman não é exceção.

A definição do maior dos poetas por Saint Beuve aplica-se justificadamente a Whitman:

“O maior poeta não é aquele que fez o melhor; é aquele que sugere mais, cujo significado das suas palavras não é sempre óbvio e que deixa muito a desejar, explicar, estudar, muito a se completar por parte do leitor.”

Vejamos e sintamos Whitman em sua “Song of Myself”:

“Celebro-me e canto sobre mim,

E o que suponho você supõe,

Pois todo átomo meu também é seu.”

Quem, se não o poeta do Amanhã, poderia atravessar até o cerne do tempo e espaço?

“Toda verdade está em tudo,

Nem apressando seu aparecimento, nem o resistindo,

Não precisam do fórceps obstétrico do cirurgião…”

William Cowper disse: “A sabedoria é humilde por não saber demais.”

Sobre a sabedoria disse Whitman:

“Aqui o teste da sabedoria:

Sabedoria não é examinada nas escolas,

Sabedoria não é passada de um que a tem para outro;

Sabedoria é da alma, insuscetível de provar, sua própria prova,

Aplica-se a todos os estágios e objetos e qualidades e é contente,

É a certeza da realidade e imortalidade das coisas,

E a excelência das coisas;

Algo na procissão de coisas vistas

a provoca para fora da alma.”

Não ouvimos aqui a Voz do Infinito e do Eterno? É como se um dos pés de Whitman estivesse aqui na Terra e o outro no Céu.

“Sou um poeta do corpo e sou um poeta da alma…”

E ele canta:

“Eu disse que a alma não é mais do que o corpo.”

E também:

“A alma é sempre bela, aparecendo mais ou menos, vindo ou ficando para trás,

Ela vem do seu jardim coberto, observando-se com agrado e abraçando o mundo…”

Homem e mulher: entidades diferentes?

“Sou o poeta da mulher assim como do homem,

E digo que é tão grandioso ser mulher quanto ser homem…”

A imagem da unicidade poderia ter sido mais bem pintada?

Falando de unicidade e simpatia humana, Carlyle afirmou: “Por uma verdade os homens são unidos misticamente: uma união mística de irmandade torna todos os homens um só.”

Whitman diz: “Aquele que caminha uma quadra sem simpatia, caminha ao seu próprio funeral, vestido da sua mortalha…”

Emerson e Whitman são almas gêmeas da Verdade. Emerson suave, doce e luminoso. Whitman encarando dinamicamente a Realidade que se manifesta de forma sempre crescente. Peregrinos-companheiros no caminho ao Lar de Deus, o ápice do mundo de hoje, eles marcham em glória estupenda.

A visão de Whitman da unicidade de tudo e em tudo o compele a revelar:

“Ó minha alma!, se a descobrir, terei satisfação,

Animais e plantas!, se os descobrir, terei satisfação,

Leis do ar e da terra!, se as descobrir, terei satisfação.”

E o que poderia ser mais divinamente profético e realmente verdadeiro do que isto:

“Homem e natureza não mais serão separados e difusos,

Pois o verdadeiro filho de Deus certamente os fundirá.”

Nascido antes do seu tempo, Whitman apontou para a sua nação e para o mundo o Caminho do Amanhã. E, pela Graça do Supremo, os raios-despertar do Amanhã já se tornaram visíveis, por mais que singelamente, no horizonte de hoje.

 

Escrito em Pondicherry, Índia, em 1962

 

– Sri Chinmoy

 

Do livro Pensadores-Filósofos do Ocidente editora Agbook

Ralph Waldo Emerson

Emerson foi um pensador na mais sublime acepção do termo. Sua filosofia toca o cerne de todos os problemas terrenos. “Os fins”, dizia ele, “preexistem nos meios.” Portanto, o que importa é acalentar nossas mais elevadas aspirações, com toda a sinceridade e determinação, repousando garantidos na fé de que elas realizarão a si mesmas.

Ele veio de pais pobres, mas tinha uma vontade inabalável e dependia somente de si. Estranhamente, ele aprendeu com o seu próprio interior a ser alegre diante da pobreza. Seu pai, William Emerson, um membro do clero, faleceu quando Waldo era um rapazinho de oito anos de idade. Logo em seguida, a família foi lançada em extrema pobreza. A pobreza chegou a ponto de Emerson e seu irmão mais velho terem de compartilhar de um mesmo agasalho durante o inverno. Certamente um deles tinha de ficar em casa enquanto o outro estava fora – e quem, se não o irmão mais novo, seria o azarado? Waldo perdeu as atrações, afeições e diversões do mundo exterior. Mas, ao mesmo tempo, seu isolamento lhe trouxe a oportunidade de mergulhar no mar do conhecimento. Ele estudou vorazmente. Os Diálogos de Platão e Pensamentos de Pascal inspiraram todos os seus momentos. Mais tarde, atendendo a um ímpeto interior, ele abraçou Spinoza e Montaigne juntamente com seus mestres anteriores.

Ele possuía muitos antagonistas. Hipocrisia e superstição eram os piores. Emerson lutou e lutou contra eles, mas o sucesso permanecia longe. Emerson também tinha muitos amigos. Verdade e sinceridade encabeçavam a lista.

América, a mais bela terra da liberdade, oportunidade e progresso, inspirou em Emerson o pensamento de que seus conterrâneos deveriam utilizar todos os seus dons divinos para buscar as metas mais divinas da vida. Certamente, a América irá ganhar sua verdadeira estatura quando viver as elevadas aspirações do seu filho-filósofo.

O amor de Emerson pelo aluno americano vinha da sua aspiração altíssima:

“Nosso aluno deve ter estilo e determinação, e ser um mestre em sua própria especialidade. Contudo, alcançado isso, deve colocar tal coisa atrás de si. Ele deve ter uma catolicidade, um poder de enxergar cada objeto com uma visão livre e desengajada.”

Em outras palavras, ele esperava que o aluno americano fosse uma unidade útil, não somente para a nação, mas para a crescente família-mundo.

“As coisas ensinadas nas escolas e faculdades,” Emerson sentia fortemente, “não são educação, mas os meios para a educação.” Um aluno, ao lhe ser confiado os meios, recebe sobre si a responsabilidade de continuar a se educar até que o finito e o Infinito dentro e fora dele sejam unificados numa personalidade expandida.

A filantropia e caridade certamente são de muita valia. Mas a maior parte das pessoas não possui consciência das limitações dessas duas virtudes. Tratando-se de um genuíno amante da Verdade, Emerson foi corajoso ao dizer: “Filantropia e caridade possuem certo ar de deboche.” É verdade que poucos, ou talvez ninguém, tenham impresso na tabuleta dos seus corações o grande ensinamento da Bíblia:

“Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que a mão direita faz.”

Para Emerson, poesia e filosofia não são meros enfeites. A filosofia foi um fator dinâmico formador da sua vida. Ele foi um verdadeiro homem de visão, utilizando a filosofia para sustentar a sua visão e a poesia para expressá-la. Sua vida foi uma mistura feliz de sonhos sublimes e gestos criativos. Ele não conhecia meio-termo com a sua verdade embutida: “Quando ele [o poeta] canta, o mundo escuta com a certeza de que, agora, um segredo de Deus está prestes a ser proferido.” Isso não está de acordo com a definição indiana do poeta como um vidente? O idealismo de Emerson alçou-o para muito além do seu tempo.

No dia 11 de março de 1829, Emerson foi promovido ao ministério da Second Unity Church em Boston. Mesmo o seu maior inimigo não podia negar o notável dom que tinha para fazer discursos. Todavia, mais tarde Emerson teve de separar-se da igreja por não concordar com a sua congregação quanto ao seu método de ensino. Ele simplesmente deixou a igreja, sem atacar ninguém. Era ideal, pensou, que a sua congregação tivesse outro pastor, um pastor que fosse mais de acordo com o seu gosto. Mas um dos reacionários não conseguiu se conter e disse: “Temos pena do Sr. Emerson, mas certamente parece que ele está indo para o inferno.” Nem tanto devemos esquecer-nos da resposta imediata de um verdadeiro buscador: “Realmente parece. Mas tenho certeza de uma coisa: se Emerson for para o inferno, ele mudará seu clima de tal forma que se tornará um local popular entre todas as boas almas do Céu.”

O amor por Deus de Emerson era profundo demais para formatos e convenções. Talvez por isso ele tenha deixado o ministério da Unity Church de Boston. Pessoas aquém do seu nível de cultura são objetos de pena. É natural que não tenham compreendido ele corretamente. Emerson parece ter navegado “estranhos mares de pensamento, sozinho,” com profundo autoconhecimento. A verdade de Emerson, “Ser grande é ser mal compreendido,” encontra um belo paralelo em Sri Aurobindo, o maior Vidente da Índia:

“Aquele que é por demais grandioso deve viver sozinho,

Adorado caminhando em repleta solidão;

Em vão é o seu esforço em criar comparáveis,

Seu único companheiro é a Força interior.”

Felizmente, dois grandes contemporâneos, Lincoln e Emerson, oferecem um exemplo histórico de apreciação mútua. Durante a inesquecível Guerra Civil nos EUA, foi a inspiração de Emerson que ofereceu “as melhores e mais corajosas palavras.” Ele completamente apoiava o presidente Lincoln na sua grandiosa tarefa e o chamava de “o Protetor da Liberdade Americana.” Também o presidente não poderia ficar calado. Ele honrou o buscador em Emerson com as calorosas palavras “o Profeta da Fé Americana.”

“O Profeta da Fé Americana.” Sim. Mas mais verdadeiramente um Profeta da Fé Universal, um vidente visionando o futuro no presente vivo:

“Um dia todos os homens serão amantes, e toda calamidade se dissolverá na luminosidade universal.”

 

 

Escrito em Pondicherry, Índia

e publicado em Mother India, 1963

 

– Sri Chinmoy

 

Do livro Pensadores-Filósofos do Ocidente editora Agbook

Thomas Carlyle

Carlyle. O orgulho colossal da sua pátria. Um pensador. Um filósofo. Um historiador. A grande parte das suas experiências de vida foi fundada sobre o seu despertar e iluminação interiores. Ele instigou poderosa e significantemente não apenas a consciência escocesa e britânica, mas também a consciência europeia.

De acordo com a sua filosofia, o materialismo e o mundo-máquina não serão capazes de iluminar e satisfazer a humanidade. É a mensagem do espírito que poderá transformar a face da humanidade. Em termos infalíveis, Carlyle declarou que somente os heróis ideais e dotados de uma vida-disciplina podem direcionar o barco da humanidade para as margens da satisfação e preenchimento.

E mais. Na filosofia de Carlyle, todos os seres humanos são essencialmente um, pois vêm todos da mesma Fonte. Mas, se um indivíduo é mais desperto ou iluminado do que outros, naturalmente ele deve liderar e orientar os demais. Carlyle tinha a ideia que esse indivíduo deve fazer o papel de pioneiro. Ele mesmo foi um dos pensadores-mundo e transformadores-mundo pioneiros. Destemido Carlyle. Nada o amedrontava. Ele içou alto seu estandarte altivo de realidade vida-instigadora e vida-iluminadora.

Ele falou em termos claros e enfáticos quanto ao recurso interior, e foi aqui que ele foi terrivelmente mal compreendido. Seus críticos viram um autocrata insuportável, e não um apóstolo de um novo despertar. Para a tristeza dos seus admiradores, a impaciência e irritação infectaram a sua mente. Ainda assim, Carlyle fez sua poderosa contribuição ao código-vida do mundo. Em particular o seu trabalho para o mundo da literatura de língua alemã e pela Revolução Francesa fizeram dele um membro relevante da família humana. O seu entusiasmo pela vida alemã nos seus primeiros anos aumentou consideravelmente a contribuição alemã à comunidade mundial. E o seu livro sobre a Revolução Francesa é simplesmente imortal. Lá, Carlyle oferece uma ideia de peso: uma orientação interior, uma mão invisível é o que guia e molda o destino da humanidade. Em todas as ações humanas, em todas as atividades, em todos os assuntos mundanos, terrenos, há um espírito que move, guia e molda o destino-mundo; há um propósito interior para a ação exterior.

Seu pai queria que ele fosse um padre. Mas Carlyle se tornou algo mais: um professor para o mundo. Na verdade, o desejo do seu pai foi satisfeito de uma maneira infinitamente mais ampla e profunda. Caso tivesse se tornado um padre, talvez apenas alguns escoceses amantes da religião e buscadores da verdade teriam recebido a sua luz. Mas, ao se tornar um pensador e escritor iluminador, um historiador e, por fim, um santo-filósofo no mais puro sentido da palavra, ele ofereceu a este nosso mundo o seu próprio mundo de luz, luz abundante. Por isso ele se tornou propriedade do mundo e pertencente ao tesouro-mundo.

Ontem foi o aniversário de Carlyle. Por um momento, ofereçamos à sua alma o nosso coração-gratidão pelo que ele fez para a criação de um mundo melhor, uma humanidade melhor.

 

5 de dezembro de 1975,

Nações Unidas, Nova Iorque, EUA

 

– Sri Chinmoy

 

Do livro Pensadores-Filósofos do Ocidente editora Agbook